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sábado, 3 de abril de 2010

Coração Solidário

No último domingo eu quase não consegui levantar, a cama me puxava, o edredom me enrolava e o travesseiro não queria me largar. Era bem cedo, era domingo. Uma força maior me arrancou da cama, me jogou no chuveiro e me motivou a sair. A força era a solidariedade e eu estava indo cumprir a missão da minha vida: fazer o bem.

Na Igreja encontrei outros soldados, cada um havia vencido sua própria batalha para estar naquele local e agora uniríamos nossas forças para uma nobre missão. Naquela manhã não construímos um castelo, salvamos alguém de um incêndio ou fizemos uma longa viagem pra falar do amor de Deus. Nós simplesmente tiramos entulhos de um cômodo, atrás de dois barracos, numa vila, em um bairro pobre.

Um cômodo simples de paredes sujas e teto falho que com nossa pequena ajuda se transformará de um pequeno depósito em um aconchegante lar. Não pelos móveis, pela estrutura ou pela reforma. Mas pelo espírito dos que voluntariamente foram até lá. Pelo Deus do coração desses humildes irmãos que lá habitarão.

É bom exercitar a solidariedade nesse mundo tão indiferente, nessa sociedade tão desumana, nessa cultura tão egocêntrica. É bom encarnar o amor que tanto pregamos e concretizá-lo em ações. Ações essas que transformam não só a vida de quem ajudamos, mas a nossa também.

Cheguei em casa imundo, suado e com alguns músculos doendo, mas com a certeza de que valeu a pena levantar naquela manhã. Eu estava realizado, não porque o cômodo ficou bem limpo ou o senhor muito feliz, mas porque não há nada mais gratificante do que sentir sua vida cumprindo um propósito.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Saudade

Escrevo de um país chamado Saudade, numa outra dimensão, talvez um universo paralelo. Aqui o presente real é consumido para que eu possa viver na memória o passado.

Fico deslumbrado ao caminhar pelas ruas: Cinemas apoteóticos expõem em grandes telas os melhores momentos de minha vida; Nos teatros são exibidas recordações que de outra forma não poderiam ser tão vividamente retratadas; Competentes narradores declamam as gloriosas epopéias que um dia eu vivi; E até as mais simples lojinhas revelam fotografias de toques, sorrisos e olhares. Por todo ambiente posso ouvir a doce sinfonia pautada no ritmo do meu coração.

Neste país sou um agente da voz passiva, tudo o que me é permitido fazer é observar. Num surto de desespero, eu tento romper a ilusão, por querer agir, por ambicionar sentir e não somente assistir. Tento estilhaçar o que me divide entre o ver e o viver, é esse maldito vidro, a tal da realidade. Sou expulso de lá, mas por vezes me pego trocando o presente por uma rápida viagem a esse longínquo país.

Só quando volto entendo que sinto saudade de uma representação, do que não existe mais, os personagens, hoje encenam outras histórias, e os lugares, já não são mais os mesmos. Dessa premissa deduzo a mais incontestável realidade: saudade dói.

sábado, 18 de outubro de 2008

Um sábado diferente

Hoje eu acordei e me arrumei pra ir pra igreja, um pouco antes de sair começou a chover, chover muito, eu fiquei meio desanimado, mas peguei meu guarda-chuva e saí. Quando cheguei á estação do metrô vi uma mulher e três homens reunindo os moradores de rua que dormem ali para cantar hinos, achei interessante, mas continuei meu caminho. Quando estava com o cartão na mão, na frente da catraca decidi voltar. Juntei-me à roda, eram nove homens de rua e quatro cachorros, a mulher inicialmente tinha ido alimentar os cachorros e acabou levando uns amigos para fazer uma pequena reunião ali. Eles leram a Bíblia, oraram com muita confusão e começaram a cantar. Eu conhecia o cântico “Você tem valor” que aprendi no EJC e comecei a cantar também. Depois um dos amigos da mulher deu seu testemunho de já ter sido também um morador de rua e da transformação que Deus operou em sua vida. Cantamos porque Ele vive e faz chover, nessa segunda música estava chovendo muito forte, ventando bastante. O senhor do meu lado estava chorando discretamente e balbuciava as palavras: Senhor, ajuda minha coluna pra que eu possa puxar a carroça. Cantamos outros cânticos, a mulher e os homens foram embora. Alguns moradores de rua vieram me abraçar, eu passo todos os dias por ali, conversei um pouco com eles, um contou a historia de seu casamento, outro de como havia a uma semana quebrado o pé. Os cachorros estavam brincando, a chuva caindo e eu me sentia bem naquele ambiente que me era tão hostil. Tive uma manhã de sábado bem diferente, mais com certeza muito agradável.